1

Vale nota, professor?!

Posted by Willian Scaliante on 12:34 in ,

ANTONIO OZAÍ DA SILVA

Professor do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá (UEM); editor da Revista Espaço Acadêmico

Educadores críticos como Paulo Freire nos ajudam a refletir sobre a prática docente. Mas, toda reflexão embute um certo sofrer; e este sofrimento é ainda maior quando identificamos que a teoria pedagógica, isto é, os fundamentos e modelos que incorporamos, contribuem para aumentar as dificuldades presentes no processo de ensino-aprendizagem. Entre a teoria e a prática há uma distância nem sempre fácil de percorrer. Assim, ainda que nossas certezas teóricas nos levem a assumir uma determinada postura como educadores, somos desafiados cotidianamente pela realidade da sala de aula.
A título de analisarmos os desafios e angústias da prática docente, adotemos alguns exemplos hipotéticos:
O (a) professor (a) “X” ministra aulas para duas turmas, em horários seguidos. Ele (a) aplica a prova para primeira turma e esta, no intervalo, passa as questões (e respostas) para a segunda turma. Posteriormente, o (a) professor (a) fica sabendo do ocorrido, e irado (a), afirma que a prova será anulada para ambas as turmas. Os alunos, é claro, não aceitam. O que fazer?
Numa certa manhã gélida o (a) professor (a) dirige-se à escola para ministrar aula e, lá chegando, se vê diante do seguinte fato: seus alunos mataram a aula para estudar a matéria do (a) outro (a) professor (a), que aplicou a prova na aula seguinte. O que fazer?
A aula do (a) professor (a) “Y” é interrompida pelo (a) professor (a) “Z” para informar aos alunos sobre a disponibilidade de monitoria em sua disciplina. Os alunos escutam-no atenciosamente, mas não esboçam reação nem fazem perguntas. Não contente em apenas “dar o recado”, o (a) professor (a) “Z” adota um tom de ameaça velada e sugere aos alunos que procurem a monitoria e façam um “estoque de notas”.
Nestas hipóteses, o fator fundamental que salta aos olhos é o objetivo e/ou a necessidade da nota. O (a) aluno (a) precisa estudar não para aprender, não para se formar e se educar – no sentido freireano – mas para tirar a nota, fazer um estoque de notas e obter o diploma. A avaliação torna-se o fim e não um meio, entre outros, da prática pedagógica. Os alunos sabem que não podem se esquivar de fazer o “estoque de notas”, reconhecem que determinados (as) professores (as) serão mais exigentes, isto é, dificultarão ao máximo (quanto maior o número de reprovados em sua disciplina, mais terão a fama de rigorosos); os alunos sabem-no e, por isso, adotam estratégias de sobrevivência (a cola, o “matar a aula” para estudar a prova da outra disciplina, a compra de trabalhos, via internet ou de algum conhecido (a) que vive dessa prestação de serviço, etc.). O (a) aluno precisa “fazer o estoque de notas”, passar de ano, pegar seu diploma.
A exigência da nota determina o agir dos alunos e professores, angustiando uns e outros – sem contar os sádicos e masoquistas. A nota não prova inteligência – acaso o saber pode ser quantificado?! – mas a capacidade de memorização ou de enganar o (a) professor e a si mesmo. A prova nada prova, mas é instrumento de poder e, em certos casos, de autoritarismo; em outros, simples recurso que encobre a insegurança do (a) professor e sua incapacidade de garantir a ordem na sala de aula. Que seria dos (as) professores (as) sem as notas? Que seria dos alunos sem a auto-ilusão de que suas notas expressam conhecimento? Que seria do sistema de ensino se todos perdessem o medo à liberdade, se todos se responsabilizassem pelo próprio processo de aprendizagem, se valorizassem a autonomia e a solidariedade, em lugar da tutela, submissão e da competição?[1]
É preciso que o sistema se alimente de uns e outros e aparente que os meios são os fins. É preciso que o sistema apareça a todos como racional e natural; que o (a) professor (a) diferente e questionador seja isolado e anulado. Seus alunos e colegas se encarregam desta função. Eles nem sempre o farão de maneira consciente ou por maldade, mas sim através de atitudes amparadas em regras e procedimentos pedagógicos burocráticos que dificultam e tornam ilusória a liberdade de cátedra. Isto ocorre porque alunos e professores internalizam a pedagogia burocrática e pautam sua ação e objetivos por seus princípios.
Portanto, o (a) professor que não se adapta ou questiona o sistema de notas será tratado como algo desimportante e exótico. Ele (a) até terá a simpatia de uns e outros, mas muitos tenderão a não levá-lo a sério, a tratá-lo com desdém e até mesmo a desrespeita-lo, ora abusando da sua boa vontade, ora confundindo liberdade comlicenciosidade. Seus alunos, numa perspectiva utilitária e viciada no sistema de “estocar notas”, o abandonarão a seus próprios sonhos – ele (a) lhes parecerá um idealista. Presos mentalmente ao sistema de notas, eles usarão a sua disciplina como tempo disponível para outras disciplinas que consideram mais importantes ou de professores que lhes parecem mais “rigorosos”; lerão outros textos e outros livros, dos professores mais exigentes: seus corpos podem até se fazer presentes, mas suas mentes estarão noutro lugar. Eles não percebem a própria indolência, pois que se encontram subjugados à lógica da cega obediência, da memorização de conteúdos, do “tirar a nota”. O discurso do (a) professor (a) lhes parecerá vazio, sem fundamento: não corresponde às suas expectativas. E, se o (a) professor (a), inquirí-los, eles silenciarão. O que fazer?
O professor crítico se vê, então, diante do dilema de se render à “tirania da maioria”, aos vícios incorporados por seus alunos e institucionalizados pelo sistema de ensino – desde a infância – ou insistir em suas certezas, sob o risco de parecer que padece de ingenuidade crônica ou que o considerem bobo ou frouxo. Em suma, não é fácil ser um (a) professor (a) que respeita seus alunos, trata-os como sujeitos e não como objetos e acredita em sua capacidade autônoma de aprender e de ensinar.
Todos estamos, simultaneamente, aprendendo e ensinando. Esta é a nota mais difícil de conseguir, a nota determinada não por procedimentos burocráticos, mas pela experiência do educar-se, do ensinar aprendendo e aprender ensinando. Vale nota, sim! Mas esta nota o (a) professor (a) não pode dar-lhe, meu caro (a) aluno (a). Não depende dele (a), mas apenas do seu interesse pelo conhecer. Não é fácil! Exige que você aprenda a pensar certo e que alcance a maturidade necessária a um indivíduo livre e autônomo, capaz de diferenciar meios e fins e de exercer a crítica – mesmo que tenha que enfrentar os seus próprios receios e insegurança.
O (a) educador (a) educa-se ao educar; os alunos, em geral, não compreendem essa simples verdade. Imaginam que seja “papo furado”, pensam que é “enrolação”, uma forma de “não dar aulas”, ironizam. Mas o (a) educador (a), insiste. Ele (a) sabe que há os que reagem afirmativamente, que não apenas simpatizam, mas que se assumem enquanto sujeitos autônomos e também responsáveis por seu próprio aprendizado. Há os que respondem positivamente e se educam no sentido freireano; os que percebem que memorizar conteúdos não é tudo, e talvez nem seja o principal. Então, terá valido a pena insistir neste caminho! O (a) professor (a) crítico deve agradecer a estes e também àqueles que desafiam suas certezas e teorias pedagógicas!


Links para esta postagem |
0

Pra começar bem o dia

Posted by Willian Scaliante on 12:34 in
Sonho de uma flauta
O Teatro Mágico

Nem toda palavra é
Aquilo que o dicionário diz
Nem todo pedaço de pedra
Se parece com tijolo ou com pedra de giz

Avião parece passarinho
Que não sabe bater asa
Passarinho voando longe
Parece borboleta que fugiu de casa

Borboleta parece flor
Que o vento tirou pra dançar
Flor parece a gente
Pois somos semente do que ainda virá

A gente parece formiga
Lá de cima do avião
O céu parece um chão de areia
Parece descanso pra minha oração

A nuvem parece fumaça
Tem gente que acha que ela é algodão
Algodão as vezes é doce
Mas as vezes é doce não

Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
E o dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Ah e o mundo é perfeito
Hum e o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito

Eu não pareco meu pai
Nem pareco com meu irmão
Sei que toda mãe é santa
Mas a incerteza traz inspiração

Tem beijo que parece mordida
Tem mordida que parece carinho
Tem carinho que parece briga
Tem briga que aparece pra trazer sorriso

Tem sorriso que parece choro
Tem choro que é por alegria
Tem dia que parece noite
E a tristeza parece poesia

Tem motivo pra viver de novo
Tem o novo que quer ter motivo
Tem aquele que parece feio
Mas o coração nos diz que é o mais bonito

Descobrir o verdadeiro sentido das coisas
É querer saber demais
Querer saber demais

Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
E o dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Mas o sonho
Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
E o dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Ah e o mundo é perfeito
Mas o mundo é perfeito
O mundo é perfeito...

Links para esta postagem |

Copyright © 2009 Acorda All rights reserved. Theme by Laptop Geek. | Bloggerized by FalconHive.