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Pra começar bem o dia

Posted by Willian Scaliante on 11:03 in
Não Matarás
O que escrever de um rapaz que tem a coragem de efetuar mais de 60 disparos dentro de um colégio, matando doze crianças e ferindo outras tantas? Números, em determinados momentos, não servem para nada. São tão frios. Larissa Santos Atanásio, que tinha 13 anos, no mundo dos numerais, é uma das doze vítimas fatais do sociopata Wellington Menezes de Oliveira. Covardemente, esse rapaz, que teve frieza suficiente para mirar a sua arma na cabeça de meninas, suicidou-se (pelo menos é o que diz a polícia envolvida no caso) aos 23 anos. Sim, números, novamente. Para encerrar o papo de números, quero apenas salientar que ele viveu 10 anos a mais do que Larissa. Covardia.

Reportagens pipocam a todo momento na televisão, nos sites e nos jornais impressos. A indicação da pauta é entrevistar psicólogos, sociólogos, historiadores, filósofos, enfim, intelectuais que estudam e observam o comportamento humano. Além disso, perspicazes jornalistas conseguiram encontrar “colegas” de classe de Wellington. E afirmam: ele sofreu bullying. Isso, porém, inocenta o matador de “brasileirinhos e brasileirinhas”, assim como a presidente Dilma Rousseff os chamou enquanto deixava escorrer lágrimas em uma homenagem feita momentos depois dos assassinatos no colégio em Realengo?

Se cada vítima de bullying resolvesse externar todo o seu sofrimento pegando em armas e matando pessoas, viveríamos em um caos. Todos somos culpados pelo bullying. É uma cultura enraizada no viver coletivamente. Vivemos em uma selva de pedra onde os fracos não têm vez. Por isso, não haveria munição suficiente para Wellington se vingar de todo o possível sofrimento que fez parte da sua vida. Ele precisaria efetuar mais de 190 milhões de disparos. Este assassino, queremos ou não, é filho do Brasil e de toda uma gama de comportamentos equivocados e ensinados desde que nascemos.

É quase impossível escrever sobre este assunto e não cair nas armadilhas do discurso pronto, do dualismo entre o bem e o mal, na cegueira do ódio e da compaixão. Ódio pelo assassino. Compaixão pelas crianças envolvidas e pelas famílias que estão condenadas a uma vida que será muito mais triste do que o de costume, por terem perdido de maneira tão violenta um filho querido. Sentimos raiva de Wellington principalmente por ele ter assassinado de maneira tão escrupulosa as inocentes crianças no colégio. Mas fico a me perguntar qual seria a nossa reação se ele tivesse perseguido as pessoas que lhe fizeram mal no passado, seja em um bullying ou em qualquer outra prática.

Será que vibraríamos e o elegeríamos como sendo o anti-herói que resistiu aos mais fortes? Só para ilustrar, lembre-se que muita gente aprovou o ato violento do garoto australiano Casey Heynes, que reagiu ao bullying se utilizando da força para tacar um menino pentelho e magricela no chão. Com a queda, o garoto poderia ter batido a cabeça e morrido. Levantando essa questão, quero que entenda, leitor, que em nenhum momento estou defendendo ou tentando encontrar justificativas para o ato desumano do assassino Wellington. Quero, sim, repudiar qualquer ato violento praticado contra outra pessoa. Será que um dia conseguiremos viver respeitosamente em grupo? Conseguiremos respeitar o 5º mandamento, que suplica um “não matarás”

*Crônica publicada dia 12 de abril de 2011, na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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